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Atenção

O direcionamento da consciência para determinados estímulos — internos ou externos — que permite a interação do indivíduo com o mundo e organiza os demais processos mentais.

A atenção é um fenômeno através do qual a atividade psíquica ou consciência são direcionadas para algum(s) determinado(s) estímulo(s), seja ele no domínio da percepção, afeto, pensamento, corpo, e etc. Desta forma, a atividade mental concentra seus recursos limitados ativamente em uma quantidade de informações extraídas da enorme variedade de estímulos disponíveis por meio dos sentidos, das memórias armazenadas e de outros processos cognitivos e físicos que são irrelevantes neste momento.

A atenção permite a interação do indivíduo com o seu ambiente, além de subsidiar a organização dos demais processos mentais. A atenção interfere na percepção e é fundamental para a aprendizagem e memória, tanto para armazenar novas informações quanto para recordar as antigas. Também existe uma interrelação entre as emoções, a motivação e a atenção. A atenção é um processo adaptativo, pois sem essa capacidade de seleção, a quantidade de informações externas e internas que entrariam em nossas mentes seria tão grande que qualquer atividade psicológica seria disfuncional.

Os mecanismos neurais da atenção

A formação reticular localizada no tronco cerebral é responsável pela regulação do estado de alerta e subsidia o processo atencional. As informações recebidas dos receptores sensoriais passam pela formação reticular de onde ascendem fibras para estruturas ascendentes. O sistema de ativação reticular ascendente (SARA) projeta-se para o hipotálamo, o tálamo e o córtex cerebral para mediar a ativação cortical e o comportamento. Essas projeções possibilitam a ativação cortical através do tálamo, que funciona como uma estação de retransmissão das informações sensoriais e as envia para diversas áreas do córtex. O hipotálamo também trabalha em conjunto com o SARA para regular o estado de vigília e o sono. Enquanto este mantém o estado de alerta, o hipotálamo, por sua vez, influencia os padrões de sono-vigília. A formação reticular torna-se, assim, uma estrutura mediadora entre os estímulos externos e o mundo interno, e através da atenção, seleciona os estímulos e permite uma interação com o meio, a manutenção do alerta e a escolha das respostas comportamentais.

CórtexTálamoHipotálamoMesencéfaloPonteBulboFormaçãoReticular
Anatomia do Sistema de Ativação Reticular Ascendente (SARA).

A área denominada locus coeruleus, no tronco encefálico, libera noradrenalina sobre várias estruturas do encéfalo na vigília, sobretudo quando eventos importantes acontecem ou são esperados. A noradrenalina liberada sobre o córtex altera a maneira como a informação é processada, aumentando a razão entre sinal e ruído, dessa forma, melhorando a capacidade de detecção de estímulos e a rapidez da resposta.

Observação: É importante destacar que noradrenalina demais pode surtir efeito contrário sobre os neurônios corticais. Portanto, um pouco de estresse em algumas situações contribui para a atenção e na resolução de problemas, porém, situações muito estressantes que desencadeiam estados de alerta demasiadamente intensos são prejudiciais ao bom desempenho.

Características & funções primárias da atenção

Com relação à natureza da atenção, ela pode ser dividida em voluntária ou involuntária. A atenção voluntária envolve a seleção ativa e deliberada do indivíduo em uma determinada atividade, ou seja, está diretamente ligada às motivações, interesses e expectativas (também conhecida como top-down, cujo conceito já foi apresentado na seção sobre Percepção). A atenção involuntária é provocada pelas características e saliência dos estímulos, ou seja, ocorre diante de eventos inesperados no ambiente e o indivíduo não é agente da escolha do direcionamento da sua atenção (também conhecida como bottom-up). Algumas características salientes desses estímulos são: intensidade, tamanho, cor, novidade, movimento, incongruência e a repetição. Ela é mediada por um processamento automático das informações e não requer controle consciente do indivíduo.

As ciências cognitivas descrevem algumas funções primárias da atenção, são elas: atenção seletiva, vigilância ou atenção sustentada, alternada, dividida e executiva.

Atenção seletiva

A capacidade de prestar atenção a alguns estímulos enquanto ignora outros é chamada de atenção seletiva. Seguem alguns paradigmas e fenômenos ligados à atenção seletiva:

Escuta dicótica: situação experimental ou clínica em que dois estímulos auditivos diferentes são apresentados ao mesmo tempo, um em cada ouvido. Por exemplo: uma palavra é ouvida no ouvido esquerdo e outra, diferente, no ouvido direito, ao mesmo tempo. Este paradigma ajuda a estudar como a atenção seletiva auditiva funciona; a lateralização do processamento auditivo; alterações neurológicas ou neuropsicológicas; e também pode ser adaptado para estudar processamento atencional de estímulos emocionais (utilizando palavras com conteúdo emocional) e processamento implícito.

Efeito Coquetel (Cocktail party): esse efeito descreve as maneiras pelas quais um indivíduo pode atender apenas uma conversa, em meio a uma variedade de sons e ruídos ao redor. Contudo, uma parte do seu cérebro continua monitorando o ambiente ao redor de forma inconsciente. Por isso, se no meio da conversa alguém do outro lado da sala fala seu nome, você percebe e direciona sua atenção para lá (isso ocorre especialmente para estímulos salientes, tal como o seu nome).

Estudo de Treisman: Anne Treisman sugeriu que, em vez de bloquear completamente os estímulos irrelevantes (como propunha a teoria do gargalo de Broadbent), o nosso sistema atencional atenua ou reduz a intensidade desses estímulos, mas não os elimina totalmente. Essa teoria também ajudou no entendimento de que o cérebro analisa o significado dos estímulos mais cedo do que se pensava (mesmo naqueles canais atencionais que estão atenuando a informação supostamente considerada irrelevante).

Efeito Stroop: o efeito Stroop é um fenômeno atencional que mostra como o nosso cérebro tem dificuldade em ignorar informações automáticas quando precisa focar em uma tarefa específica. No teste tradicional, são apresentados nomes de cores impressos na mesma cor que está escrita (congruente) e em outras cores (incongruente). A situação incongruente produz um conflito cognitivo no processamento das duas informações: nomear a cor e ler a palavra simultaneamente. Este paradigma ajuda a estudar a atenção seletiva e a inibição da interferência de estímulos salientes ou automáticos. O paradigma pode ser adaptado para estudar a interferência de estímulos emocionais.

AzulVermelhoVerdeAmareloPreto
VermelhoAmareloAzulPretoVerde
PretoVerdeVermelhoAmareloAzul
AmareloAzulVermelhoVerdePreto
Exemplo de incongruência no teste de Stroop.

A cegueira por desatenção (inattentional blindness) é o fenômeno que se refere à tendência dos indivíduos de não perceberem objetos ou eventos inesperados em seu campo visual quando sua atenção está focada em outra coisa. Em um estudo clássico, alguns participantes foram convidados a assistir um vídeo de pessoas jogando bolas de basquete uns aos outros e então contar o número de passes feitos por um dos times. Durante o vídeo, uma pessoa fantasiada de urso entrou na cena e caminhou entre os times, mas muitos participantes não visualizaram o urso pois estavam focados em contar os passes.

A cegueira de mudança (change blindness) é um fenômeno cognitivo em que mudanças no campo visual não são percebidas pelo observador, principalmente quando essas mudanças coincidem com uma interrupção visual. Apesar de serem diretamente observáveis, essas alterações muitas vezes passam despercebidas devido à dependência atencional da expectativa de estabilidade na cena visual.

O viés atencional (attentional bias) é um fenômeno no qual as pessoas prestam mais atenção a certos tipos de estímulos em detrimento de outros. A priorização de certas informações torna mais eficaz o processamento deles através de recursos que são limitados. Isso é fundamental para a sobrevivência por ser um processo adaptativo, mas fatores como emoções, experiências passadas, estresse e expectativas também podem influenciar a forma como concentramos nossos recursos atencionais e afetar nossas decisões, memórias e comportamentos.

Vigilância e atenção sustentada

A vigilância, também conhecida como estado de alerta, envolve a antecipação passiva de um estímulo que pode aparecer a qualquer momento; portanto, a atenção é prolongada por um período estendido a fim de poder detectar o aparecimento do sinal. É necessária em ambientes nos quais um dado estímulo não ocorre frequentemente, mas exige imediata atenção assim que ocorre.

A atenção sustentada, embora esteja presente na vigilância, também pode ocorrer em outros contextos. A habilidade de prolongar (ou sustentar) a atenção no tempo, de forma efetiva, é necessária para vários comportamentos, tal como estudar, ler, ver um filme, participar de uma conversa, entre outros. Ela pode ser treinada e melhorada através de exercícios específicos de treinamento cognitivo, observação e leitura.

Atenção alternada e dividida

A atenção alternada é a habilidade de alternar o foco da atenção entre diferentes tarefas ou estímulos, permitindo a flexibilidade cognitiva entre múltiplas demandas simultâneas ou sequenciais.

A atenção dividida é a capacidade cognitiva de processar dois ou mais estímulos ou realizar tarefas simultaneamente, e denota a distribuição de nossos recursos de atenção. Tanto a habilidade da atenção alternada quanto a da atenção dividida podem ser aprimoradas com exercícios multitarefa e treinamento cognitivo; além disso, ambas podem diminuir com o envelhecimento.

Atenção executiva

A atenção executiva é um processo atencional mais complexo, que demanda uma necessidade maior de controle e esforço cognitivo. Ela se refere tanto ao foco em uma determinada tarefa, como também à capacidade de percepção quando há um desvio atencional, e a partir dessa percepção, conseguir concentrar-se novamente. Ela é fundamental para o autocontrole, autorregulação, planejamento e desempenho.

Diferenças entre adaptação sensorial e habituação

As respostas que envolvem adaptação fisiológica acontecem principalmente em nossos órgãos sensoriais, ao passo que as que envolvem habituação cognitiva acontecem principalmente no cérebro, e relacionam-se à aprendizagem.

AdaptaçãoHabituação
Não-acessível ao controle consciente. Exemplo: você não consegue decidir com que velocidade irá se adaptar a um determinado cheiro ou a uma mudança específica na intensidade da luz.Acessível ao controle consciente. Exemplo: você pode decidir ficar ciente de conversas de fundo às quais havia se tornado habituado.
Muito vinculado à intensidade dos estímulos. Exemplo: quanto mais aumenta a intensidade de uma luz, com mais força seus sentidos irão adaptar-se à luz.Não muito vinculado à intensidade do estímulo. Exemplo: seu nível de habituação não vai diferir muito em sua resposta ao som de um ventilador barulhento e de um condicionador de ar silencioso.
Não-relacionado ao número, à duração e ao período de exposições anteriores. Exemplo: os receptores sensoriais de sua pele responderão às mudanças na temperatura basicamente da mesma forma, não importando quantas vezes você foi exposto a essas mudanças e o quão recentemente as experimentou.Muito vinculado a número, duração e caráter recente de exposições anteriores. Exemplo: você se habituará com mais rapidez ao som de um carrilhão se tiver sido exposto ao som com mais frequência, por períodos mais longos e em ocasiões mais recentes.
Tabela retirada do livro Psicologia Cognitiva, de Robert B. Sternberg.

É preciso estar atento

São muitos os fatores que influenciam na avaliação da atenção de uma pessoa ou paciente: cansaço, sonolência, uso de substâncias psicoativas, e horário de realização da avaliação. É preciso estar atento para considerar as condições necessárias para a avaliação do tipo de atenção, assim como ao tipo de teste que será utilizado.

Os seguintes fatores estão presentes em todas as modalidades de testes para a avaliação da atenção: a) Vigilância: capacidade de selecionar e focar os estímulos; b) Amplitude: quantidade de estímulos que deverão ser processados na realização do teste; c) Tracking: rastreamento do material em foco envolvendo processos de memória de curto prazo; d) Tempo de reação: tempo necessário para a realização da tarefa; e) Alternância: flexibilidade e velocidade no deslocamento da atenção de um foco para outro.

Referências

  • Sternberg, R. J. (2008). Psicologia cognitiva. 4. ed. Porto Alegre: Artes Médicas. ISBN 9788536311159.
  • Franco de Lima, Ricardo. (2005). Compreendendo os Mecanismos Atencionais. Ciências & Cognição, 6(1), 113-122. Rio de Janeiro, nov. 2005.

Materiais Complementares

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